A Crítica da CEO da Belas Artes à Expansão Descontrolada do Ensino Superior Privado
O Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, uma das instituições mais tradicionais no segmento de artes e design no Brasil, tem chamado atenção para um problema estrutural no ensino superior privado: a expansão acelerada sem os devidos investimentos em qualidade. Patrícia Cardim, CEO da instituição e quarta geração de uma família à frente da Belas Artes desde sua fundação há 101 anos, declarou recentemente que essa dinâmica representa 'a grande dor do ensino superior brasileiro hoje'. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Cardim destacou a transição do mercado de mãos familiares para grandes grupos corporativos de capital aberto, o que, segundo ela, gerou uma 'mudança brusca na qualidade'.
Essa crítica ganha relevância em um contexto onde o setor privado domina o panorama educacional brasileiro. Com quase 80% das matrículas em instituições privadas, o ensino superior no país passou por uma transformação profunda nas últimas décadas, impulsionada por políticas públicas como Prouni e FIES. No entanto, os indicadores de qualidade revelam persistentes desigualdades, especialmente entre público e privado.
Histórico da Expansão: De Elitista a Massificado
O ensino superior no Brasil era historicamente elitista até os anos 1990, com acesso restrito a uma minoria. A partir daí, reformas regulatórias e incentivos fiscais permitiram a proliferação de faculdades privadas, muitas voltadas para cursos presenciais e, mais recentemente, ensino a distância (EAD, ou Educação a Distância). Programas como o Programa Universidade para Todos (Prouni), lançado em 2004, e o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), expandido nos governos Lula e Dilma (2003-2016), democratizaram o acesso, elevando as matrículas de 2,5 milhões em 1994 para cerca de 10 milhões em 2023.
Essa massificação beneficiou milhões de jovens de baixa renda, mas trouxe desafios. Grandes grupos educacionais, como Cogna e Yduqs, concentraram o mercado, priorizando escala sobre excelência. Como resultado, o número de instituições saltou para 2.580 em 2023, sendo 88% privadas, mas com alta evasão e baixa empregabilidade em muitos casos.
Estatísticas Revelam a Dominação Privada e Seus Desafios
De acordo com o 15º Mapa do Ensino Superior 2025, elaborado pelo Semesp com dados do Censo da Educação Superior 2023 do INEP/MEC, o Brasil contava com 9,98 milhões de matrículas. O setor privado responde por 79,3% delas, um aumento de 5,7 pontos percentuais desde 2013. O crescimento foi de 7,3% no privado em 2023, contra estagnação no público.
| Modalidade | % Matrículas | Crescimento 2022-2023 |
|---|---|---|
| Presencial | 50,7% | -1,0% |
| EAD | 49,3% | +13,4% |
O EAD, quase exclusivo do privado (95,9%), impulsiona a expansão, mas com taxa de evasão de 64,1%. No geral, o dropout no privado chega a 61,3%, afetando especialmente engenharia (65,2%) e direito (57,3%). Regiões como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro concentram 42,1% das matrículas, exacerbando desigualdades regionais.
Indicadores de Qualidade: Descompasso entre Público e Privado
Os Indicadores de Qualidade da Educação Superior (IQES), divulgados pelo INEP, expõem as disparidades. O Índice Geral de Cursos (IGC), que avalia instituições em faixas de 1 a 5, mostra 85% das universidades públicas em faixas altas (4 e 5), contra apenas 21% das privadas. O Conceito Preliminar de Curso (CPC) segue tendência similar: 38,2% dos cursos presenciais privados em 4-5, mas com queda acentuada no EAD.
No Enade 2023, avaliados cursos como agronomia, enfermagem e engenharias, o desempenho médio privado ficou abaixo do público. O IDD (Índice de Diferença entre Desempenhos Observado e Esperado) reforça: instituições privadas superlotadas subperformam expectativas. Esses dados, disponíveis no portal do INEP, subsidiam políticas como credenciamentos e autorizações de cursos.
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- IGC 2023: 66% privadas em faixa 3 (médio), vs. 15% públicas.
- Censo 2023: 87,8% IES privadas, mas apenas 12,2% públicas.
- Projeção: EAD ultrapassa presencial em 2024.
Causas da Crise: Corporativização e EAD Desregulado
Cardim aponta a ausência de educadores na gestão corporativa como cerne do problema. Grandes grupos focam lucros via mensalidades baixas e EAD de baixa interação ('PowerPoint à distância'). Até 2025, regulamentações frouxas permitiram expansão sem rigor, gerando 'fábricas de diplomas'. Políticas como FIES financiaram isso, mas com inadimplência alta (70% em alguns picos), sobrecarregando o Tesouro.
Estudos mostram que a concentração em 10 grupos privados responde por grande fatia de matrículas, com precarização docente e evasão crônica. No EAD, falta de polos adequados e supervisão agrava.
Belas Artes: Um Modelo de Governança Familiar Resistente
Contraponto positivo, Belas Artes adota 'governança raiz': transmissão orgânica de cultura familiar, com profissionais do mercado, mas 'goleiros da cultura'. Com 620 colaboradores e mensalidade média R$3.800, cresce 15% ao ano no presencial (mercado -9%), focando economia criativa. Cursos como Artes Visuais (maior do Brasil, 101 anos) colocam 70% dos egresados no mercado de galerias e instituições culturais. Integra IA como ferramenta, não substituto.
Impactos na Sociedade: Evasão, Desemprego e Desconfiança
A crise afeta empregabilidade: 40% dos graduados privados em subempregos, per INAF. Evasão de 61% desperdiça recursos públicos (FIES). Estudantes pagam caro por diplomas desvalorizados, erodindo confiança no sistema. Regiões periféricas sofrem mais, com EAD prometendo acesso mas entregando isolamento.
Casos como Enamed 2024, cancelando medicina em 80% das novas escolas privadas, ilustram respostas tardias do MEC.INEP Portal
Respostas Governamentais e Setoriais
O MEC endureceu regras para EAD em 2025, exigindo elementos presenciais, apoiado por Cardim por elevar padrões, apesar de riscos a acesso remoto. Andifes critica expansão sem qualidade desde 2007. Semesp alerta para evasão, propondo retenção via tutoria.
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- Regulamentação EAD: Polos obrigatórios, supervisão.
- Enamed: Corte em medicina privada mal avaliada.
- PNEDS: Novo plano debate qualidade.
Perspectivas e Soluções Construtivas
Para reverter, especialistas defendem: governança com educadores, investimento docente, híbridos qualificados, foco empregabilidade. Belas Artes exemplifica: rigidez financeira + paixão cultural. Projeções Semesp indicam estabilização, com privados premium crescendo. MEC pode usar IQES para autorizações seletivas.
Stakeholders como Cardim chamam por Ministério da Economia Criativa, dados para artes. Estudantes ganham com escolhas informadas via IGC/CPC.
Visão de Futuro: Qualidade como Diferencial Competitivo
A crise pode catalisar renovação. Privados como Belas Artes mostram viabilidade de excelência familiar em nichos. Com IA e regs, setor pode equilibrar acesso e rigor, beneficiando Brasil como polo criativo global. Educadores, MEC e mercado devem priorizar valor sobre volume.
