O ensino superior brasileiro vive um momento de transformação profunda, marcado pela ascensão da educação a distância (EAD, ou Ensino a Distância) e dos centros universitários como principais motores de expansão. No entanto, essa dinâmica traz consequências preocupantes para as faculdades tradicionais, especialmente aquelas localizadas em regiões afastadas dos grandes centros urbanos. Uma pesquisa recente do Instituto Semesp, entidade ligada ao Sindicato das Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo, alerta para o risco de prejuízo significativo a essas instituições locais, que historicamente desempenham papel crucial na interiorização do acesso à educação superior.
De acordo com dados compilados no 16º Mapa do Ensino Superior no Brasil, divulgado em março de 2026, o total de matrículas no país atingiu 10,23 milhões em 2024, com crescimento de 2,5% em relação ao ano anterior. Pela primeira vez, a EAD superou o ensino presencial, representando 50,7% das matrículas. Esse marco reflete anos de expansão acelerada, impulsionada principalmente pelo setor privado, que concentra 79,8% dos alunos. Mas por trás dos números positivos, há um desequilíbrio que ameaça a diversidade e a capilaridade do sistema educacional.
A Explosão da EAD no Cenário Brasileiro
A modalidade EAD tem sido o principal vetor de democratização do ensino superior desde a flexibilização regulatória promovida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB, Lei nº 9.394/1996) e decretos subsequentes. Entre 2014 e 2024, as matrículas em EAD na rede privada saltaram 314%, com um crescimento ainda mais acentuado nos centros universitários (555%). Em 2024, 63% das matrículas nesses centros eram na modalidade remota, contra apenas 17,2% nas faculdades tradicionais.
Esse avanço permitiu que o Brasil alcançasse mais de 50% de seus jovens entre 18 e 24 anos matriculados no ensino superior, mas também expôs fragilidades. A concentração etária revela perfis distintos: 67,3% dos alunos EAD têm 25 anos ou mais, frequentemente trabalhadores que buscam qualificação sem interromper a rotina profissional. Já o presencial atrai majoritariamente jovens até 24 anos (70,3%). No entanto, o ritmo de expansão da EAD desacelerou para 5,6% em 2024, abaixo dos 13,4% de 2023, sinalizando possível saturação ou impacto de novas regras regulatórias.

A Ascensão dos Centros Universitários como Protagonistas
Os centros universitários emergiram como categoria híbrida na década de 1990, oferecendo autonomia para criar cursos e vagas sem as exigências plenas das universidades tradicionais, como obrigatoriedade de pós-graduação stricto sensu ou alto percentual de docentes doutores em tempo integral. De 2014 a 2024, seu número cresceu 201%, passando de instituições marginais para concentrar 42% das matrículas privadas – um salto de 20,4 pontos percentuais.
Essa expansão foi alimentada pela capacidade de abrir polos EAD rapidamente, reduzindo custos operacionais e mensalidades. Grandes grupos educacionais migraram faculdades para centros (267 casos) ou criaram novos, ampliando presença nacional. No Sudeste, epicentro do ensino superior privado, centros universitários lideram com 44,2% das matrículas regionais. Exemplos incluem instituições em São Paulo e Minas Gerais, que expandiram para o interior via EAD, capturando alunos que antes optavam por faculdades locais presenciais.
O Declínio das Faculdades Locais e Seus Motivos
Em contraste gritante, as faculdades isoladas – aquelas sem vínculo a grandes mantenedoras e focadas em municípios de médio porte (60-100 mil habitantes) – enfrentam retração. Seu número caiu 5,7% em uma década, e as matrículas despencaram 52,2%, de 36% para 12,4% na rede privada. A falta de autonomia regulatória é o calcanhar de Aquiles: dependem de autorização do Ministério da Educação (MEC) para novos cursos ou vagas EAD, processo lento e burocrático.
A concorrência desleal surge com centros universitários baixando mensalidades via escala EAD e abrindo polos próximos. Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp, destaca: "Em cidades com 100 mil habitantes, é uma faculdade que está ali presente ofertando vagas. Elas sofreram com a ampliação do EAD sem políticas de incentivo." Casos concretos incluem fechamentos em Minas Gerais, onde EAD cresceu 226% entre 2018-2023, pressionando presenciais regionais, e no Rio Grande do Sul, líder em EAD (58,3% das matrículas), com queda de 1,5% total em 2024.
Impactos Regionais: Descentralização em Risco
A interiorização do ensino superior, conquista das últimas décadas, está ameaçada. Faculdades locais atendem demandas regionais com cursos noturnos em áreas como Administração e Pedagogia, mas perdem alunos para EAD acessível de capitais. No Norte e Nordeste, onde privadas chegam a 87,5% das matrículas (ex.: Rondônia), o declínio agrava desigualdades. Mapas do Semesp mostram centros universitários expandindo EAD para mais municípios que faculdades presenciais, mas sem o mesmo enraizamento comunitário.
Em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, estados pioneiros em EAD, Pedagogia e Administração lideram matrículas remotas, mas evasão alta compromete resultados. A concentração em mega-instituições (1,4% das mantenedoras detêm 47,1% das matrículas) reforça o risco de monopólios regionais.

Evasão Recorde na EAD: Um Desafio Crônico
Apesar do boom, a EAD enfrenta taxa de evasão de 41,6% em 2024 – recorde histórico e quase o dobro do presencial (24,8%). Na privada, chega a 41,9%, com acumulada de 68,1% no ciclo 2020-2024. Fatores incluem perfil adulto (conciliar estudo e trabalho), baixa motivação e qualidade variável. Tecnólogos e mega-IES lideram desistências (64,3-69,2%).
- Motivos comuns: Dificuldades financeiras (67% dos casos, segundo Semesp).
- Falta de suporte pedagógico personalizado.
- Transição para semipresencial pós-2026, com presença obrigatória em saúde e engenharias.
Visões de Especialistas: Equilíbrio entre Expansão e Qualidade
Maria Ligia Barbosa, socióloga da UFRJ, alerta: "A expansão dos centros universitários pode fortalecer o sistema, mas o declínio das faculdades compromete alternativas para públicos específicos." Simon Schwartzman, da Academia Brasileira de Ciências, critica: "Expansão EAD excessiva; setor público deve oferecer mais vagas." O capítulo especial do Mapa Semesp defende regulação para preservar diversidade.
No relatório Tendências 2026 (Semesp/STHEM), especialistas apontam IA, novo marco EAD e Sinaes como prioridades para reduzir evasão via inovação pedagógica.
Soluções Propostas: Diversidade e Sustentabilidade
| Desafio | Solução Sugerida |
|---|---|
| Falta de autonomia faculdades | Flexibilização regulatória seletiva para EAD regional. |
| Alta evasão EAD | Tutoria reforçada, análise preditiva e bolsas condicionadas a desempenho. |
| Concentração em mega-IES | Incentivos fiscais para pequenas regionais e parcerias público-privadas. |
| Qualidade variável | Monitoramento Sinaes com foco em concluintes e inserção laboral. |
Políticas incluem expansão Prouni/Fies para presenciais regionais e obrigatoriedade de conexão local em centros (pesquisa sobre demandas regionais).
Implicações para Estudantes, Profissionais e Mercado
Para alunos, EAD amplia acesso, mas exige disciplina; presenciais locais oferecem rede comunitária. Profissionais de faculdades regionais enfrentam cortes, migrando para centros. Mercado valoriza híbridos, com demanda por skills digitais. Futuro: semipresencial dominante pós-2026, equilibrando qualidade e flexibilidade. Veja análise detalhada no artigo da Folha PE.
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Perspectivas Futuras: Rumo a um Equilíbrio Saudável
O Mapa Semesp projeta estabilização EAD e retorno presencial, com foco em qualidade. Regulações como fim EAD 100% em áreas reguladas forçarão adaptações. Instituições que investirem em inovação e parcerias regionais prosperarão, preservando o legado das faculdades locais enquanto centros evoluem para hubs híbridos.
